Saúde hi-tech na aldeia

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Enquanto coloca o cocar para a entrevista, Pajé Chicão, o Akangatchaua, manda uma mensagem de áudio no WhatsApp para uma amiga e diz que não a responde por escrito. Ele não tem muita afinidade com tecnologia e nem teve estudos, mas nos últimos dias teve uma experiência que considera intrigante e positiva. O Pajé foi um dos indígenas atendidos pelo projeto pioneiro de telemedicina, o Piauí Saúde Digital, em Piripiri, que fica a 160 km de Teresina. Essa forma de atendimento tem gerado opiniões divergentes considerando a possível perda de qualidade no atendimento, mas, ao mesmo tempo, conseguiu eliminar as filas de espera para diversas especialidades médicas no município. O modelo, que teve como prioridade os povos originários, deve ser copiado para outras cidades.

Há muitos anos, Teresina tem sido um importante polo de saúde no Nordeste, concentrando uma significativa parcela dos atendimentos em diversas especialidades médicas. Isso acontece tanto através do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto por meio de clínicas particulares. Essa alta demanda gera longas filas de espera formadas, em grande parte, por pessoas de outras cidades. Várias soluções já foram pensadas para amenizar o problema e acelerar o atendimento à saúde. Após um período marcado pela pandemia e pela expansão dos métodos de atendimento à distância, foi identificado um possível antídoto para esse mal: a telemedicina.

Leia mais: Telemedicina avança mas contrasta com acesso desigual à internet

Embora tenha sido questionada por setores da comunidade médica devido à possibilidade de maior distanciamento entre médico e paciente, por meio de consultas intermediadas pela tela de computador, o serviço conquistou a aprovação de muitos e levou o Piauí a abraçar um protejo focado na telemedicina: o Piauí Saúde Digital. O plano piloto escolhido para implementar o serviço foi na cidade de Piripiri, onde as atividades foram iniciadas de forma gradual em janeiro. Esse início discreto resultou em resultados encorajadores.

São ofertados diversos exames com auxílio da telemedicina na cidade de Piripiri; Foto: Diego Iglesias

O projeto foi desenvolvido em uma parceria entre Prefeitura e a Secretaria Estadual da Saúde, que forneceu o aparato tecnológico enquanto o município disponibilizou os espaços e o material humano, um dos pontos de destaque do sucesso até agora. Foram todas as 31 Unidades Básicas de Saúde da família beneficiadas, bem como o hospital regional Chagas Rodrigues, a Policlínica, o Batalhão de Polícia Militar e um espaço dedicado à saúde indígena, além do aplicativo SOS Portal, aberto para a população 24 horas por dia.

Além dos atendimentos, um dos destaques do projeto foi a criação do Centro de Imagem Municipal – CIM-, que oferece exames de imagem com resultados mais rápidos, o que a diretora, Kaylanne Alves, destaca como um dos pontos fortes e que já salvou vidas. “Já tivemos um caso de um paciente que estava com uma parada cardíaca na hora do exame e, graças a agilidade do laudo, conseguimos salvá-lá”, destaca.

Em seis meses foram quase 10 mil atendimentos médicos intermediados por uma tela de computador, fazendo com que as filas para diversas especialidades fossem zeradas, bem como facilitou o acesso aos exames e aos diagnósticos. “Mas não é só pela tela, não é por por um robô. [Os pacientes] vão estar sendo atendidos por médicos, médicos capacitados, médicos humanos, médicos que vão ouvir, que vão dar atenção e faz toda aquela anamnese detalhada, aquele atendimento humanizado do outro lado da tela. Mas a escuta é personalizada para cada paciente. É mais baseado na escuta e se for preciso, temos pessoas para aferir pressão, a temperatura e essas coisas”, explica.

Para a gestora do centro, apesar da dificuldade de algumas pessoas com a tecnologia, principalmente as mais velhas e as de comunidades rurais, a adaptação foi rápida. “Temos técnicos intermediando o tempo todo. Elas ficam disponíveis caso eles tenham dificuldade com o computador, mas respeitando a privacidade no atendimento com o médico”, explica Kaylanne.

Para a diretora, os resultados estão sendo positivos principalmente pela agilidade no recebimentos dos exames. Foto: Diego Iglesias

Orgulhosa, a diretora passeia pelo espaço ainda impecável com algumas salas vazias, mas com equipamentos de mamografia, radiologia, raio-x, eletrocardiograma e tomografia no ponto. Mas isso não indica descaso, mas sim um orgulho para a gestora: “Zeramos a fila de espera de mais de sete especialidades que já estava há vários meses. Então a aceitação foi bem estranha. É estranho. O novo dá medo, mas na medida que foi acontecendo as consultas, os pacientes foram gostando e hoje tem muitos que optam pela telemedicina. Mudou o clima do centro de saúde, aquele tenso de hospital, onde a qualquer momento alguém pode sair brigando porque o médico não está lá, porque não recebe atenção de quem está trabalhando… o cansaço, diminuiu isso também. Cem por cento! E hoje os relatos são de que está melhor do que clínica particular”, destaca Kaylanne.

A secretária de saúde do município, Beatriz Pimentel, destaca que além da melhoria na qualidade, outros problemas foram amenizados, como a necessidade de transporte de pessoas para Teresina em busca de especialidades médicas ou de exames. “Antes eu tinha que mandar vários carros levando pacientes (para a capital) porque não tínhamos tomografia e as pessoas às vezes esperavam seis meses só para o resultado. Aí depois eu tinha que mandar ela só para buscar o resultado que só entrega pro paciente e isso tirava a vaga de outro. Então a saúde digital, a telemedicina, mudou nossa realidade porque temos serviços de imagens. A gente vive hoje um avanço”, comemora.

Saúde indígena

Quem antes via distante a evolução da saúde do município agora está recebendo uma atenção especial. Isso porque as comunidades dos povos originários foram as grandes beneficiadas com o projeto, com um centro exclusivo de atendimento médico e que é liderado por um indígena, o técnico de enfermagem Cícero Dias, da comunidade Tabajara.

O espaço é uma homenagem ao mais antigo indígena piauiense. Foto: Diego Iglesias

A criação do espaço é uma espécie de reparação histórica, levando em conta ainda os dados do último Censo do IBGE indicando que o Piauí teve um crescimento de 144% da população indígena autodeclarada. Em 2010 eram 2.944 pessoas e em 2022 foram 7.198, sendo o 5º maior crescimento do país. Das cidades piauienses, Piripiri tem o maior número absoluto de indígenas com 1.370, divididos em 7 comunidades: Tabajara, Tucum, Colher de Pau, Itacoatiara, Novo Jenipapeiro, Canto da Várzea e Fonte dos Matos.

O Espaço de Saúde Indígena Cacique Zé Guilherme é uma homenagem ao mais antigo indígena piauiense. E em apenas um mês de funcionamento, realizou 55 atendimentos por meio da telemedicina, centralizando os serviços de saúde para os indígenas, que também podem buscar atendimento em outros postos espalhados pela cidade.

Cícero Dias acompanha os atendimentos dos indígenas no espaço de saúde. Foto: Diego Iglesias

Para Cícero, embora tenham estranhado o atendimento no início, o serviço agradou os indígenas da comunidade. Durante a consulta, inicialmente eles são recebidos por um clínico geral e todos os encaminhamentos são enviados para o centro de imagem, onde é realizado o atendimento conforme a especialidade necessária. “No primeiro momento eles acharam um pouco estranho. Como é que eu vou ser atendido por um médico que não está aqui, na minha presença? Às vezes eles até brincam, fazem piadas dizendo que quando o médico está aqui, nem sempre dá muito certo, imagine ele estando em outro lugar e eu conversando com ele por meio de um computador ou celular. Mas depois, quando veem que é tudo mais rápido, acabaram gostando”, explica. 

O pajé Chicão, Akangatchaua, ou cabeça de onça, foi um dos que recebeu atendimento no Espaço Saúde Indígena. Aos 48 anos, ele se orgulha da saúde, que segundo ele vem da sua boa relação com a natureza. No entanto, um problema na lombar vem tirando seu sono ultimamente. Para ele, a experiência foi bem estranha. “Eu fiquei assim olhando para aquilo e disse meu Deus o que é isso? Porque aí apareceu uma mulher na televisão. Aí ela perguntou meu nome, deu bom dia, eu disse bom dia e eu me perguntava como era isso aí. Aí eu também fiquei em dúvida quem era e se era médica ou alguma coisa? Aí ela perguntou o que que eu sentia. Eu contei tudinho pra ela e me liberou na mesma hora pra fazer os exames. Aí o pessoal que está lá recebendo a gente mandou ir pra UPA e lá foi ligeiro demais”, descreve.

Chicão diz que o atendimento por telemedicina foi fácil, apesar de ser estranho. Foto: Diego Iglesias

Em meio aos seus produtos artesanais como colares e maracás que fabrica em casa, inquieto e sempre produzindo, ele diz que sente dificuldade com tecnologia, mas que já aprendeu muito. Para ele, as pessoas precisam se permitir e se adaptar aos novos mecanismos, sejam elas ferramentas ou tecnologias sociais. 

Expansão e checklist

Piripiri foi só o primeiro passo do Piauí Saúde Digital no estado. Segundo o superintendente de Média e Alta Complexidade da Sesapi, Dirceu Campêlo, a expansão do Piauí Saúde Digital está prevista para ocorrer neste segundo semestre de 2023 com a implementação de um plano de adesão direcionado às prefeituras interessadas em integrar o programa. A previsão do lançamento desse plano deve ocorrer entre o final deste mês e início de outubro. Para participar do programa, as prefeituras precisam cumprir uma série de pré-requisitos. “Para a implantação do Piauí Saúde Digital em novos municípios, o Estado ficará responsável por todo o processo, incluindo a disponibilização do serviço de telemedicina de forma contínua, 24 horas por dia. As prefeituras assumirão a responsabilidade pela parte estrutural, incluindo a disponibilização de salas, computadores com acesso à internet e pessoal administrativo para conduzir o cadastro e acesso aos serviços”, explica. 

No fim de julho deste ano, representantes do Ministério da Saúde, incluindo a secretária da saúde digital, Ana Estela Haddad, estiveram presentes e aprovaram o projeto piloto de Piripiri. Dirceu ressalta que um dos objetivos centrais do Piauí Saúde Digital é enfrentar a fragilização da assistência à saúde indígena.  “Facilitar o acesso dos povos originários, no caso os povos indígenas, é essencial. Isso envolve atendimentos médicos especializados. Portanto, é realmente importante incluí-los no âmbito da saúde, abrangendo tanto a Unidade Básica de Saúde quanto a saúde digital. O objetivo é simplificar o acesso”, ressalta.

Outra comunidade tradicional presente no Piauí é a dos quilombolas. No estado, segundo o IBGE, foram registradas mais de 31 mil pessoas pertencentes a esses agrupamentos. Dirceu fala sobre a possibilidade de estender o Piauí Saúde Digital para atender especificamente essas comunidades. “As comunidades quilombolas serão atendidas de acordo com a prefeitura à qual estão vinculadas. Quando chegar a etapa de expansão nas prefeituras relacionadas, essas comunidades também serão consideradas, de acordo com suas necessidades. Será avaliado se é possível incluí-las no mesmo plano ou se é necessário desenvolver um projeto específico”, comenta. 

Segundo o superintendente, um dos principais desafios na fase de expansão do Piauí Saúde Digital para os demais municípios do estado é a organização de uma dinâmica eficaz para otimizar e agilizar os processos das consultas agendada com os especialistas. “É necessário contar com a colaboração das prefeituras para coordenar esses agendamentos de forma sincronizada. Essa coordenação deve ser feita de maneira organizada, garantindo que os pacientes tenham informações sobre o dia, data e horário das consultas. No caso, essa abordagem também está planejada para a expansão”, ressalta.

Para não ficar relegado a uma sala sem uso

O projeto piloto do Piauí Saúde Digital tem proporcionado uma experiência positiva ao democratizar o acesso à saúde para a população de Piripiri e zerar filas de espera de atendimentos médicos. Para garantir uma expansão eficaz do modelo, é essencial estabelecer uma sólida parceria entre o governo estadual e as diversas prefeituras do estado, focando na  colaboração e comunicação entre todas as partes envolvidas. É necessário que os poderes envolvidos considerem a infraestrutura tecnológica, o treinamento adequado para os profissionais de saúde e a garantia de que a população compreenda e possa usufruir dos benefícios oferecidos pela plataforma. Isso permitirá a adaptação do Piauí Saúde Digital à realidade e às necessidades específicas de cada localidade, evitando o risco de o projeto ser relegado e esquecido no fundo de uma sala sem uso em outros municípios piauienses.

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