A cidade frita!

A cidade frita!

A cidade frita!

“Do verde exuberante que te veste, ao Sol que doura a pele à tua gente”. Ao escrever o hino de Teresina, o professor e poeta Cineas Santos exaltou o calor e o verde da capital piauiense. No entanto, o poeta não imaginava que a sua composição, eleita em concurso em 1996, trouxesse à tona um dos maiores problemas da atualidade na cidade, que pega carona com o maior risco do mundo: as mudanças climáticas. A antiga “cidade verde” cantada em versos agora precisa de medidas urgentes de arborização, pois acumula um aumento de temperatura 2x maior do que a média global: são 2 graus a mais no termômetro, com uma sensação térmica de 45 graus neste ano, de acordo dados da agência espacial americana Nasa.

Situada numa zona de transição entre o Semiárido Nordestino e a Amazônia conhecida por Meio-Norte, a vegetação do município de Teresina é composta pela Floresta Estacional Semidecidual, o Cerrado e a mata de cocais. Posicionada abaixo do equador, o que favorece o aquecimento, faz parte do do Grupo Tropical com clima Savânico. No entanto, com a influência do El Niño e o crescimento da cidade, a temperatura média da cidade vem aumentando ao longo dos anos.

Aumento da temperatura com influência do El Niño (Fonte: Consórcio Codex / I Care)

Esse aumento da temperatura vem ao lado de uma mudança no ciclo de chuvas, que se intensifica aos extremos, em um determinado período aumenta e diminui em outros. De acordo com o Plano Diretor de Drenagem Urbana, Teresina pode registrar precipitações que superem as médias anuais em apenas um mês. A tendência é que a intensidade das chuvas aumente na cidade, que já registrou precipitações totais de 1394 mm em 1947 e 1370 mm em 1950. Outras variáveis relacionadas a esta apresentam tendência de aumento, por exemplo, a máxima precipitação anual acumulada em 1 dia e 5 dias, no período chuvoso, podendo-se inferir que as chuvas estão a cada ano mais concentradas. Se antes os meses de maio, junho e julho eram caracterizados pela brisa e ventos que amenizavam a sensação térmica, hoje tem-se um aumento do período de calor. Ou seja, o B R O Bró está chegando mais cedo. E mais quente. Esse comportamento pode ser percebido facilmente pela sociedade, que sofre com alagamentos, inundações, enxurradas, deslizamentos, enchentes e inundações durante os episódios de chuva e com as dificuldades para manter a produção agrícola diante das chuvas irregulares e tendência a secas, além da sensação térmica que impede o funcionamento pleno da cidade em determinados horários. E aquela frase “quando o sol esfriar a gente vai”, comum em qualquer ciclo de amigos em Teresina, vai fazer muita gente ficar em casa.

Risco de susceptibilidade à ondas de calor no município de Teresina em 2070 (Fonte: Consórcio Codex / I Care)

Um relatório produzido pela Agenda 2030, da Secretaria Municipal de Planejamento da Prefeitura de Teresina, aponta a necessidade de se discutir ações urgentes para amenizar a onda de calor na cidade, que está começando a sentir mais severamente as consequências nos últimos anos, com tendências nada animadoras. Para além do calor, as ameaças climáticas também acendem o alerta ainda para o risco de arboviroses, causadas pelos arbovírus que incluem dengue, Zika, Chikungunya. Isso representa o agravamento de problemas em várias áreas, como saúde, educação e gestão pública.

O coordenador da Agenda 2030 em Teresina, Leonardo Madeira, é direto sobre o principal fator de agravamento da situação climática, algo que está no hino da capital, antigamente chamada de “Cidade Verde”, “título” dado pelo poeta maranhense Coelho Neto em 1899:

“O problema está relacionado diretamente a nossa cobertura vegetal que vem diminuindo ano após ano. Isso é bastante preocupante. A Prefeitura de Teresina tem trabalhado e incentivado a arborização da cidade, mas ainda não é suficiente e nós reconhecemos isso. Nós precisamos de uma política mais agressiva. E percebemos também que a retirada da cobertura vegetal se dá não somente nos logradouros públicos ou praças, mas também nos quintais. As pessoas têm que plantar mais árvores”, explica.

O planejamento de ações para evitar o colapso está dentro do Plano de Ação Climático da cidade, que está em processo de finalização e será lançado no fim do mês de agosto. O documento será uma ferramenta fundamental para guiar a tomada de decisão e a implementação de medidas efetivas para mitigação e adaptação da cidade às mudanças climáticas. No entanto, para que o Plano seja eficaz, é fundamental que ele seja estruturado em torno de alguns eixos estratégicos prioritários. Esses eixos são categorias amplas que agrupam as ações necessárias para alcançar os objetivos do plano, permitindo uma abordagem sistêmica e coerente. “Esse plano de ação contempla um inventário amplo de gases de efeito estufa para cidade e um estudo de vulnerabilidade. Ele mostra pra gente quais os principais emissores de gases de efeito estufa, mostra as principais vulnerabilidades de Teresina e mostra as ações. As ações que devem ser feitas, as ações de adaptação e mitigação, de enfrentamento mesmo às mudanças climáticas”, destaca Leonardo.

As ações previstas no Plano incluem diversas obras como a “construção de galeria de drenagem de águas pluviais e aumento das áreas permeáveis para escoamento da chuva e redução dos alagamentos; construção de barreiras e lagoas de contenção para redução das inundações; aumento da área vegetada, por meio do plantio de árvores para requalificação ambiental, que ajudarão a reduzir os efeitos do calor excessivo e de ondas de calor; entre outras ações transversais à todos os riscos, como o aprimoramento e fortalecimento do Sistema Municipal de Defesa Civil, por meio de desenvolvimento de planos de contingência, ações de prevenção, monitoramento, alerta, assistência e, caso necessário, recuperação”.

Diante desse quadro preocupante, Teresina acabou tomando um papel vanguardista na tentativa de amenizar os problemas, sendo uma das poucas capitais a pensar no problema de forma mais consistente e com a elaboração do Plano. “Em cima desse, desse plano, nós vamos em busca de financiamentos para podermos implementar essas ações na cidade. Então esse é o principal compromisso de Teresina, que vai se aliar a outras capitais que já possuem o plano”, destaca Leonardo.

Para o gestor, as discussões sobre o clima merecem ser trazidas à tona com pressa, com participação mais intensa até mesmo da sociedade com pequenos atos, como cuidado com o lixo, queimadas e o plantio de árvores em casa. “Infelizmente a perspectiva não é boa. É negativa, mas isso é para o mundo como um todo. O planeta está aquecendo. Então é até natural se imaginar que Teresina também vai aquecer, independentemente do que nós façamos. A cidade em algum momento vai aquecer, mas ela pode aquecer menos do que a média global por exemplo. E é isso que nós precisamos fazer. Nós precisamos construir ações políticas que evitem que Teresina aqueça numa taxa acelerada demais”, finaliza.

No horizonte da cidade, é quase sempre possível observar níveis de fumaça. Elas estão cada vez mais frequentes e intensas. As queimadas também exacerbam o aumento do calor em Teresina. O fogo resultante das queimadas libera grandes quantidades de dióxido de carbono e partículas finas na atmosfera, o que agrava o efeito estufa e contribui para o aquecimento global. Em áreas urbanas como Teresina, onde já existem altas temperaturas devido às condições climáticas locais, o aumento adicional de calor proveniente das queimadas intensifica a sensação térmica e piora a qualidade do ar. Isso pode resultar em condições extremamente desconfortáveis e até mesmo prejudiciais à saúde dos moradores da cidade. 

No horizonte da cidade, a fumaça indica a presença de queimadas, que desempenham um papel significativo no aumento do calor percebido em Teresina (FOTO: Douglas Gomes)

Que quentura da pilora!

Se para quem está nas paradas de ônibus o calor pode ser insuportável, do lado de dentro dos ônibus as sensações térmicas não são assim tão diferentes ou talvez sejam até piores. Motoristas e cobradores de ônibus de Teresina vivenciam diariamente esse calor “infernal” que levou a cidade a ser reapelidada de TereHellsina. Eles protocolaram uma solicitação com o intuito de obter o reconhecimento das condições insalubres em que desempenham suas atividades, considerando as precárias condições dos ônibus, que amplificam o calor da cidade e impactam ainda mais aqueles que trabalham dentro desses veículos. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes Rodoviários do Piauí (Sintetro), Antônio Cardoso, explica que alguns ônibus já estão em uso por mais de 8 anos, chegando até 12 anos, e, devido à localização do motor nesses modelos, o calor gerado é tão intenso que alguns motoristas chegam a perder os pelos das pernas. “Em alguns modelos mais antigos o motor fica localizado na frente dos ônibus. Às vezes, quando o veículo começa a esquentar, a vedação já está desgastada e a gente tem uma exposição maior à temperatura nos pés e nas pernas. Como consequência, os pelos dessas áreas começam a cair por conta do calor. Dado o clima já quente de Teresina, essa situação se agrava ainda mais”, relata.

As altas temperaturas sentidas pelos motoristas de ônibus resultam do calor do motor combinado com a “quentura” da cidade (FOTO: Reprodução/ High Constrast)

 Antônio relata que mesmo quando os sistemas de ar-condicionado não apresentam defeitos, as empresas de transporte instruem os funcionários a não ativá-los devido ao alto consumo de gasolina. De acordo com ele, o ar-condicionado normalmente é utilizado somente nos veículos em que as janelas não podem ser abertas devido à vedação. O presidente do Sintra também reconhece que essa situação afeta os passageiros, mas que no caso dos motoristas e cobradores, ela é ainda mais intensa.  “A temperatura onde o motorista está é maior, mesmo que dentro do ambiente esteja muito quente. O passageiro também sofre, mas ele fica um período menor que a gente nessa situação, porque logo ele vai descer, enquanto continuamos dentro do ônibus trabalhando por horas”, conta.

 O adicional de insalubridade para trabalhadores do transporte público de Teresina está sendo discutido com as empresas responsáveis. Antônio mencionou que a concessão desse benefício será decidida pelo Ministério Público do Piauí, com apoio técnico do Tribunal Regional do Trabalho.

Cuidado para não fritar!

 O suor escorrendo pela testa, manchando a roupa e aumentando gradativamente a impaciência e a irritação. Se para muitos a ideia de dia bonito é um dia ensolarado, em Teresina a sensação de calor no corpo pode ser tão desagradável que gostamos de dizer que “ o dia está bonito para chover”. A relação entre o sol e a pele é complexa e fundamental para a nossa saúde. A exposição ao sol traz benefícios, como a produção de vitamina D, essencial para a saúde óssea e o sistema imunológico. No entanto, a exposição excessiva e sem proteção pode causar danos significativos à pele. A dermatologista Ana Lúcia fala sobre a importância dos cuidados com a pele em todos os meses do ano, com atenção redobrada durante o Br-o-bró típico do nosso estado. A necessidade de cuidado, segundo ela, deve ser ainda mais intensa para indivíduos com pele clara, olhos claros, cabelos claros ou histórico familiar de câncer de pele, como pais e avós. No entanto, todos devem tomar cuidados. “Primeiramente, ao sair de casa, é crucial estar protegido, usando um filtro solar com FPS 30 ou superior. A escolha do filtro solar deve ser de acordo com o tipo de pele, e é aconselhável buscar orientação com seu dermatologista”.

Além do uso do protetor solar, chapéus, roupas de mangas compridas e óculos escuros contribuem para a proteção contra os raios solares. Ana Lúcia ressalta que o cuidado com a pele não fica limitado à região do rosto e que deve abranger todo o corpo. “É importante beber pelo menos dois litros de água por dia, usar hidratantes e ter uma alimentação saudável que inclui frutas e verduras”.

Além das pessoas de pele mais clara, a dermatologista aponta outros grupos que, devido às suas ocupações, estão expostos aos riscos da pele. Esses indivíduos precisam estar especialmente atentos aos cuidados com a pele. “ Aquelas pessoas que trabalham em áreas externas ou muito expostas ao sol, como motociclistas, motoristas, ambulantes e funcionários da limpeza pública, enfrentam um risco acrescido. É fundamental que todos tomem precauções. Vamos permanecer vigilantes e proteger tanto nossa pele quanto nossa saúde” adverte.

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