Em meio a maior enchente da história, prefeita de Brasiléia considera projeto para tirar moradores da parte baixa da cidade

Em meio a maior enchente da história, prefeita de Brasiléia considera projeto para tirar moradores da parte baixa da cidade

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De acordo com a gestora, há moradores de alguns locais da cidade que se recusam a deixar as casas, mesmo com a enchente. É o caso do bairro Leandro Barbosa, onde cerca de 200 pessoas permanecem durante a cheia.

O plano para o período pós-cheia, segundo a prefeita, inclui construir novas residências e conjuntos habitacionais na parte mais alta do município e desocupar a parte baixa, que sempre é coberta por enchentes.

“São cheias seguidas, então, posteriormente, vamos pensar um projeto ousado e tirar essa parte baixa daqui, construir novas casas, novos conjuntos habitacionais para a parte alta da cidade, porque não dá mais. Nós temos bairros como o Leonardo Barbosa, colocamos à disposição da população para retirada, mas teve pessoas que ainda ficaram. Nós temos 200 pessoas lá. Eu mesma fui lá, levamos médico, levamos a equipe de farmácia ambulante para fazer dispensação de remédios, para entregar comida para eles e para garantir o cuidado com a vida”, disse Hassem.

O município superou a marca registrada em 2015, naquela que ficou conhecida como a pior cheia da história da cidade, quando as águas do manancial cobriram 100% da área urbana do local.

O Acre enfrenta uma cheia histórica em 2024. Em todo o estado, 14.476 pessoas estão fora de casa, dentre desabrigados e desalojados, segundo a última atualização nesta quarta-feira (28). Além disto, 17 das 22 cidades acreanas estão em situação de emergência por conta do transbordo de rios e igarapés. Ao menos 23 comunidades indígenas no interior do Acre também sofrem com os efeitos das enchentes.

Repórter Eldérico Silva mostra extensão da enchente em Brasiléia, no interior do Acre

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Com mais de 75% da cidade coberta pela água, a cheia em Brasiléia também dificulta o acesso de veículos que levam mantimentos, já que a cidade está isolada por via terrestre.

Segundo a prefeita, no momento, o município conta com doações principalmente de água potável para abastecimento dos abrigos montados. São três mil refeições diárias, incluindo café da manhã, almoço e jantar.

“Ontem [terça-feira, 27] nós recebemos mantimentos do estado, mas tão logo chegou, a gente já despachou para essas famílias que estamos abrigando em escolas e para os abrigos oficiais da prefeitura, que são 15. Além de dividir esse suporte, mandando para comunidades ribeirinhas, também da zona rural. Então, quem puder ajudar, e se puder ajudar, nos ajude com mantimentos, com água, com toda a ajuda necessária”, finaliza.

Balseiros se acumulam em ponte coberta por enchente no interior do Acre

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Maior enchente da história

Rio chegou a marca de 15,56 metros às 9h30 desta quarta-feira (28) — Foto: Eldérico Silva/Rede Amazônica Acre

O Rio Acre ultrapassou a marca de 15,55 metros e chegou ao maior nível já registrado no trecho que passa por Brasiléia, distante a mais de 230 km da capital Rio Branco. Na medição das 9h30 desta quarta-feira (28), o nível chegou a 15,56 metros.

Moradores fazem fila para aguardar embarcação que faz transporte até Brasiléia — Foto: Eldérico Silva/Rede Amazônica Acre

Com a cidade tomada pelas águas, quase 4 mil pessoas estão desabrigadas ou desalojadas, segundo a prefeitura do município. Os moradores de Brasiléia e de Epitaciolândia, cidade vizinha, fazem filas para aguardar as embarcações que têm feito o transporte de moradores para várias atividades. O comércio, inclusive, não parou de funcionar, nem mesmo com a cheia.

No caso da técnica de enfermagem Odete de Lara, a necessidade de locomoção é por conta do trabalho. Ela veio de Rio Branco para atuar no hospital de Brasiléia.

“Eu estou chegando aqui e vou me apresentar assim que conseguir chegar do outro lado, de canoa, que é a única forma. Para mim é um grande desafio, mas eu vou conseguir chegar lá”, relata.

Técnica de enfermagem aguarda embarcação para chegar a Brasiléia e trabalhar no hospital do município — Foto: Eldérico Silva/Rede Amazônica Acre

Ainda conforme a prefeitura, são 2.968 pessoas desalojadas, ou seja, que precisaram sair de suas casas, e 1 mil desabrigadas. Entre essas pessoas está Maria Lucinele Lene, moradora do bairro Leonardo Barbosa, e que precisou deixar sua casa após a água entrar no local.

Ela está na casa da sogra, e diz que ainda tentou escorrer as águas que entraram na residência, mas a inundação acabou alcançando a janela de sua casa.

“A água começou a chegar por trás, ela veio pelos bueiros. Eu estava em um hospital com a minha filha, aí quem tirou [a água] foram os meus parentes, aí ela [água] começou a chegar. Agora ela tá na janela. Nunca tinha vivido isso. Estou na casa da minha sogra, toda a família está lá. E todo ano a gente pensa que vai acontecer de novo”, conta.

Conforme a cheia avança pela cidade, um gabinete de crise foi instalado e as pessoas atingidas começaram a ser cadastradas para receberem assistência. E a esperança de Maria Lucilene é exatamente essa: que os moradores afetados pela enchente recebam a devida atenção, e que possam voltar para casa.

“A gente já vai ficar naquele medo. Eu espero não sei nem o que. Pelo menos uma melhoria para a gente, se as pessoas olharem mais para a gente, para aquele bairro, que é um bairro de risco. Eu espero voltar para minha casa”, pede.

“A gente já vai ficar naquele medo. Eu espero não sei nem o que”, diz moradora que teve casa atingida por enchente em Brasiléia — Foto: Eldérico Silva/Rede Amazônica Acre

O coordenador do gabinete e subcomandante do Corpo de Bombeiros do Acre, coronel Eden Santos, ressalta que a resposta à emergência já está sendo posta em prática, mesmo diante da extensão da cheia, que dificulta os trabalhos.

“Todo o poder de resposta está atuando para poder dar o menor impacto para a nossa população. No intervalo de tempo muito curto de operações, nós temos já cerca de 75% da cidade de Brasileia em inundação. E faz com que o nosso trabalho operativo se complique mais ainda. Quando a gente tem um colapso na passagem da ponte, estamos fazendo diversas intervenções de segurança para não ter problema de colapso também no sistema de abastecimento e também energético aqui na região de Brasiléia. Todo o poder de resposta, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Polícia Civil. Todos os organismos de resposta aqui têm atuado de forma íntegra. Todo mundo coeso, buscando sempre o melhor para o atendimento dessas famílias”, destaca.

Colaborou o repórter Eldérico Silva, da Rede Amazônica Acre.

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Link original da notícia: https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2024/02/28/em-meio-a-maior-enchente-da-historia-prefeita-de-brasileia-considera-projeto-para-tirar-moradores-da-parte-baixa-da-cidade.ghtml

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