Com novo disco, Dona Onete chega aos 85 anos em festa: ‘Você dança, o sol nasce e a bagaceira ainda não terminou’

Com novo disco, Dona Onete chega aos 85 anos em festa: ‘Você dança, o sol nasce e a bagaceira ainda não terminou’

Em ritmo de festa, Dona Onete conta que o disco combina ritmos do Norte, como brega, lambada e carimbó. O disco inteiro nasceu da faixa-título, “Bagaceira”, uma homenagem às festas do interior e à vida na região rural. A própria Dona Onete explica de onde veio a inspiração.

“É algo mais profundo do que apenas a festa pela festa. Nos tempos antigos dos engenhos de cana-de-açúcar em Igarapé-Miri, no Pará, a ‘bagaceira’ era uma expressão usada pelos caboclos. Era sobre aquelas festas depois do baile oficial, longe dos olhares críticos da sociedade, sabem? O povo dançava descalço, com a sua curtição, à sua maneira. Era uma festa sem os refinamentos da alta sociedade”, conta.

Cada faixa é uma história viva, uma narrativa que ecoa as experiências de vida da cantora, refletindo a essência dos locais onde nasceu e viveu. Desde o envolvente Banguê da faixa-título “Bagaceira” até a atmosfera festiva do Carimbó em “Curió Cantador” e “Festa no Ver-O-Peso”, o disco é uma grande celebração da música paraense.

“A bagaceira é a festa depois da festa, comum no interior do Pará. É onde o povo se mistura. Você chega, dança, come, bebe, pensa que acabou, volta pro salão, dança, o sol nasce e a festa ainda não terminou. E, quando parece que vai terminar, os ribeirinhos pegam o barco e continuam a festa no Ver-o-Peso”, diz.

Dona Onete sempre teve em mente criar um disco que pudesse ser desfrutado em festas de interior, festas de aparelhagem e à beira do rio, conectando-se profundamente com seu público e suas raízes culturais.

Com músicas como “Lunlambumbarimbó”, que tem participação de Félix Robatto, a Rainha do Carimbó Chamegado demonstra seu compromisso com a dança e a diversão, criando melodias e sons que convidam o ouvinte a se entregar ao ritmo contagiante da música paraense.

“Bagaceira” tem o patrocínio do Natura Musical através da Lei Semear, Fundação Cultural do Pará e Governo do Estado do Pará.

Dona Onete em gravação do disco “Bagaceira” — Foto: Negritar Filmes

Artista aos 60 anos

Nascida em Cachoeira do Arari, no Marajó, Dona Onete construiu uma trajetória marcante como mulher forte e independente, e se dedicou ao ofício de professora de história e Estudos Paraenses durante 25 anos. Também atuou como secretária de cultura de Igarapé-Miri, no nordeste do estado, na década de 1990.

Mas a carreira de cantora tardou a iniciar. Com mais de 300 canções autorais, Dona Onete começou a subir nos palcos já aos 60 anos. Foi depois da separação do casamento de 25 anos que ela experimentou a liberdade para enveredar pela arte, caminho que a levou ao reconhecimento nacional e internacional, e fez de suas canções patrimônio cultural imaterial do Pará em 2024.

Aos risos, ela relembra o momento da separação. “Cheguei na frente do juiz, o juiz perguntou pra mim: ‘a senhora é uma professora muito inteligente, muito querida, bonita, a senhora se arrepende de ter vivido esses 25 anos casada com o seu marido?’. Respondi: ‘Eu me arrependo de não ter colocado uns 400 livros na cabeça dele’. Perante o juiz, aquilo saiu que eu nem sei, veio do coração”, diz.

Dona Onete relembra momento que se reencontrou como mulher e artista

Dona Onete relembra momento que se reencontrou como mulher e artista

“Ele não gostava que eu usasse calça daquele tempo. Mas eu comprei uma calça Lee cortei, fiz bem curtinha para as pernas aparecerem. Sandália plataforma, peguei, botei no pé, passei batom vermelho, cabelo grande, amarrei um lenço lilás. Quis saber se eu ainda podia agradar alguém. Porque 25 anos direita, nunca fiz nada, nunca beijei ninguém. Aí, eu fiz tudo isso aí para dar um ‘quadrado’. Se tu passar no mercado de peixe e ninguém mexer contigo é porque então não tem nada, meu filho. Quando eu passei no mercado de peixe, os peixeiros correram. Meu Deus, vem cá, vem ver uma coisa que está acontecendo. Quem é aquela? É a mulher do Nonato. Eu disse: ‘eu não sou mulher de ninguém”, relembra.

Daí para frente, enveredou pelas músicas e pela dança nas serestas, ambiente que a inspirou nas composições e na estética do seu carimbó chamegado.

Dona Onete iniciou a carreira artística com o álbum “Feitiço Cabloco” , lançado em 2012. Ela participou de importantes grupos folclóricos como o “Raízes do Cafezal” e grupo pop com raízes regionais “Coletivo Rádio Cipó”. No cinema, interpretou uma cantadora de carimbó no filme “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, protagonizado por Camila Pitanga.

Com quatro álbuns gravados e diversos singles, ela reúne sucessos que retratam o Pará e celebram os ritmos do Estado, como “No Meio do Pitiú” e “Carimbó Chamegado”.

Dona Onete no Terruá Pará — Foto: Ingrid Bico/G1

A marajoara foi uma das estrelas da série de espetáculos “Terruá Pará”, contando com expoentes de todas as vertentes da música local.

O reconhecimento internacional resultou em turnê pela Europa, passando por países como Portugal, França, Inglaterra e Finlândia.

A cantora também fez parcerias com outros grandes nomes da música paraense, como Fafá de Belém, Gaby Amarantos e Aila. Sua parceria com Daniela Mercury, quando a baiana gravou a canção “Banzeiro”, agitou o carnaval de 2018 e se mantém relevante.

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Link original da notícia: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2024/06/18/com-novo-disco-dona-onete-chega-aos-85-anos-em-festa-voce-danca-o-sol-nasce-e-a-bagaceira-ainda-nao-terminou.ghtml

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